Essa aconteceu lá pras bandas da Paraíba, mas faz tanto tempo que naquela época os bodes ainda nem tinham chifres, só iriam adquiri-los a preços módicos algumas eras mais tarde quando um ingênua família de caracóis, totalmente rendida ante a lábia de uma lesma tão carismática quanto cafajeste, deixava suas casas para trás perseguindo uma ilusão. Quem se deu bem no final foram os bodes. E o molusco, claro. Sobre este assunto basta dizer que entre os fidalgos da terra é considerado um vício abrir negociação com uma determinada espécie de lesma-zebra, exatamente a que referimos neste preâmbulo.
Mas os bodes só encontrariam seus chifres muito depois desta história. Procede que, na época em que o gigante Piaimã ainda vagava por essas terras resignado atrás de toda espécie dos tais animais barbichas orleanas bodódromos e formatos de cabeça chata sem cornos, o que não faz tanto tempo assim, o serumano, ele mesmo, já havia adquirido seus chifres e para sempre estaria no cardápio das segundas-feiras de Piaimã, dia da infame penitência. O pior era a hora daquela galhada sair. E ele ainda fazia questão de tacar pimenta, pra arder mais. Piaimã era assim, tadinho, arrastava o peso de muitas mortes, odiava comer animais. Fazia mal pra si mesmo, se machucava. Era, por natureza, um humanista, um antropófago, apreciava o homem, por quem desenvolveu apurada técnica de abate e subsquente corte. Mas tinham os malditos chifres. Desde que surgiram tudo mudou, passou a ser um antigozo comê-los, e, suplício máximo, caçar, despelar e esquartejar bodes. Chorava toda noite.
Do alto de uma colina, viu Ambrozilina, que era vila e não menina, bem que talvez alguma menina na vila chamaria Ambrozilina algum dia, mas ali ninguém não nascia, era uma vila menina e ainda crescia.
Atrás de uma pedra grande e cinza foi onde ele se escondeu, ficou olhando a cidade e entendendodonde as pessoas iam e viam. É estranho chegar até aqui e você ainda não saber que na verdade Piaimã tem cerca de sete cavalos de altura. Tá certo que está escrito no título “gigante” né, mas enfim, uma única palavra no meio de tantas, não vamos querer exigir demais de você, não é querido leitor? E eu só falei porque tu não teria como mensurar o tamanho da pedra onde ele se escondeu atrás, e, rapaz, era uma pedra grande. Certo, então a pedra grande e cinza tinha uns nove cavalos de altura. E Piaimã, que é gigante, de trás dela encontrou exatamente o depósito de comida da cidade e sabia o que roubar naquela noite.
Gigantes não são conhecidos por serem particularmente furtivos, a empreitada do grandão custou a alguns aldões fraturas generalizadas e uma decapitação de membros aqui outra acolá. O próprio Pi recebeu um talho profundo, até o osso, no antebraço esquerdo e também foi queimado na antecoxa esquerda por uma mandala de ferro em brasas empunhada por um velho careca que cantava mantra incensado. Mas hei!, a comida era de Piaimã, sem muito tempo para mambojambos. Pegou quatro ou sete carroças e burrinhos carregados e picou-se dali, subiu na montanha mais alta da Paraíba, bem onde o corisco corre solto, e sentou-se na beirada comendo aquele colosso. Por pelo menos 10 dias não precisaria esquartejar os bodezinhos! Joyfull golly! Suspirava contando estrelas petiscando sacas inteiras de farinha, acompanhando uma ou otra galinha e um eventual burrico desprevenido. A coxa ardia e ele colocou um pouco de barro para resfriar.
Já a cidade virou geléia. Meio mundo morto fudido, umas casa tocando fogo, o padre com o crânio arrancado fudeu geral. Todo mundo em pânico apagando incêndio e saindo na mão se iam atrás do gigante naquela hora ou fugiam que ele ia voltar. Eis que surge momento oportuno, que é este, quando apresentamos Pedro. Curuminzim cabloquim assim voava lá pelos seus sete anos e já sabia se transformar em doze coisas. Falou que ia atrás do gigante. Deram risada. Insistiu, levou porrada. Subiu de castigo até o quarto, não podia sair, mas eles eram uns burros porque pedro já sabia muito bem se transformar em mosca e fresta era o que não faltava pra ele passar. Não deu dez minutos e já subia correndo o morro sem a menor idéia do que fazer mas indo lá pra resolver. Viu um burrico assando de longe e não carece dizer que os meninos, eles sim, receberam toda furtividade ausente nos gigantes. Observou de perto um grandalhão bebâdo de vinho e carne que, sentado, buscava constelações na abóboda celeste. Encontrava dificuldade imensa para identificar qualquer conjunto de estrelas. Em sua cabeça estão gravados os desenhos das constelações, mas entre isso e ligar no cérbo o nome associado morreu neves, não interessa quanto esforço fizesse, não saía nome.
Sou um fracassado!, chorou Piaimã, sou ninguém, nunca serei alguém, mas ah, esses sonhos do mundo que me têm.. você estrelinha, você.. eu sei quem é você.. é alfa de qualquer coisa.. e suas amiguinhas, vocês.. vocês são.. vocês são.. vocês vão pro diabo que as carregue, malditas constelações! e tchuf, jogava uma pedra nelas!
É centauro, seu burro! falou Pedro e imediatamente desacreditou o que fez. Ele não havia dado qualquer orientação para que sua língua e cordas vocais e pulmão e todo o trato enfim falasse qualquer coisa, ainda mais em voz alta, mas o fato é que ele falou, as estrelas evidentemente eram centauro e o menino não pôde tomar qualquer outra ação porque essa é uma história inventada e foi assim que aconteceu.
Difícil dizer quem assutou mais, porque o gigante ficou goiaba. Arregalou os olhos, esfregou, tornou a arregalar e olhou ao redor quase que com vergonha por ter ouvido as estrelas falarem com ele. Pedro, atrás de uma carroça, virou pedra e ficou. O privilegiado na estatura se abestalhou e, depois de um longo silêncio, conversou com o céu.
Mas, sr. centauro.. você está bravo comigo mas o senhor também não sabe meu nome
O cérebro de Pedro já havia processado a deixa anterior e agora decididamente deu a ordem:
É claro que eu sei seu nome, escolheu a voz espectral para dizer isso, é Piaimã, o panaca do sertão!
O que?? Como o sr. sabe disso???, retrucou desconfiado
É que eu te vejo como você vê uma constelação, Piaimã, lí suas estrelas.. olha ali sua mãe gorda fedorenta e mais ali embaixo sua irmã mais velha, aquela gostosa fenomenal de oito cavalos de altura, desnudou pedro
O queeeee? Seu cavalinho felodaputa! Tu vai rodar na minha mão seu porra, família é sagrado! e tchuf, jogou pro céu com tudo uma pedra, que caiu no mato.
aê sua bichola, rebola esse seu corpo de mola, dá pra ver sua calcinha rosa daqui de cima porra!
Piaimã perdeu o controle. Realmente estava de calcinha rosa. Mas como assim aquele cavalinho tinha visto essa porra lá da abóboda celeste e agora ainda gritava pra céus e terras que ele tava de calcinha, caralho! Felodaputa! E ai tchuf tchuf tchuf tchuf voou burrico, pedra, saca de rapadura, carroça, Pedro, árvore, calcinha, o diabo! Mas o menino, olha só como é herói, o menino na hora que foi agarrado como pedra ainda teve tempo de abrir uma saca de farinha e um barril de leite, deixou os dois numa carroça pro gigante jogar por último já certinha naordi. Antes disso ele próprio foi jogado e saiu voano. Pode ver aí em cima que a terceira característica que eu elenquei para Pedro é que ele voava e acho bom vocês passarem a acreditar no que vocês lêem, porque ele realmente voava e foi fácil aterrisar bem ao lado de casa. Quando pousou, toda a comida paçoca de carne seca arroz maria quitéria tartarugas piningas jogada por Piaimã chovia na cidade. Houve grande festa, todos repartiram o maná e beberam como porcos, os mortos poderiam esperar! A calcinha rosa de Piaimã virou bandeira na torre da igreja e, groselhando pela rua, gritavam em coro certas grosserias contra o gigante que, por educação, vou escolher deixar de fora deste conto infantil.
No alto da colina, sem comida, burrico ou calcinha, Piaimã remoía seu caminho e sua assadura na bunda fruto de rendinha arrebentada. Ouviu a cantoria na vila, soltou o último urro, brilhação furiosa antes de encerrar seu ciclo naquela região. Nunca mais daria as caras no sertão agora. Sua eterna Jurema ficaria para sempre no Ceará. Iria para São Paulo. Maldito cavalinho! ARRrrrhgRghgrHGrhgRHGrhgrHGaaaaaaar e tchuf, em força máxima pro céu a última carroça, cheia de farinha e leite, que foi foi foi foi até saiu da terra tchuf foi pro espaço. E que não se duvide que foi essa mema farinha e esse próprio leite da derrabeira carroça de Piamiã que se soltou fazendo todo o caminho dos signos no céu, pintando de branco tudo com farinha e leite. É dai que veio a via láctea.
